A Caixa Econômica Federal recentemente lançou uma linha de microcrédito digital, o Crédito Caixa Tem. No entanto, o novo serviço vem sendo criticado por economistas e educadores financeiros que temem o alto risco de endividamento das famílias mais vulneráveis. A nova linha dispõe de valores entre R$ 300 e R$ 1mil reais, com cobrança de juros de 3,99% ao mês e 24 meses para pagar – uma taxa acima da média do mercado.

As principais críticas se referem ao contexto econômico atual e o valor dos juros. Isso porque o anúncio do novo serviço de empréstimo ocorre num momento de agravamento da crise econômica e próximo ao fim do auxílio emergencial. Além disso, o governo federal ainda não encontrou uma solução definitiva para custear o Auxílio Brasil – novo programa de distribuição de renda que substituirá o auxílio emergencial e o Bolsa Família.

Nesta terça-feira (5), o presidente Jair Bolsonaro sancionou com vetos o projeto de lei que autoriza o governo federal a usar a reforma do Imposto de Renda como fonte de recursos para compensar a criação do Auxílio Brasil. A reforma no IR já foi aprovada pela Câmara dos Deputados, mas sofre resistência no Senado.

O iDinheiro conversou com especialistas para entender quais os riscos e os cuidados necessários na hora de solicitar o empréstimo Crédito Caixa Tem. Confira a seguir.

Possíveis riscos do Crédito Caixa Tem

Segundo Bia Moraes, educadora financeira da Ativa Investimentos, o Crédito Caixa Tem seria uma opção de crédito muito interessante se não fosse pelo timing. “Mesmo que exista a possibilidade do auxílio emergencial ser prolongado, nós ainda temos novo Bolsa Família que não está confirmado. Então acaba que sem essas duas opções do crédito, o Caixa Tem passa a ser uma das poucas possibilidades que o brasileiro de baixa renda têm de se capitalizar, só que dessa vez com um empréstimo, o que coloca os coloca numa situação de dívida”, declara Moraes.

A educadora financeira ressalta também que a taxa de juros do Caixa Tem, de 3,99% ao mês, é muito alta. Na média do mercado, o crédito consignado tem juros médios de 1,45% ao mês, enquanto o crédito pessoal tem taxa média de 2,42% ao mês, segundo o Banco Central (BC). A justificativa para os juros do Crédito Caixa Tem serem mais altos é o alto risco de inadimplência, uma vez que a linha de crédito é destinada a pessoas de baixa renda.

Uma outra preocupação apontada é o risco de possíveis endividamentos. Para Rodrigo Leite, professor de finanças e controle gerencial do Coppead/UFRJ, esse tipo de endividamento pode ser uma bola de neve por causa dos juros compostos.

“Se não forem realizados os pagamentos das mensalidades, irão correr juros sobre juros aumentando em muito o valor da dívida. Além disso, há o risco dos nomes dessas pessoas ficarem sujos no SPC e no SERASA, o que irá dificultar no futuro a contratação de novos serviços bancários e financeiros”, explica o professor.

Rodrigo Leite avalia ainda que embora o Crédito Caixa Tem possa ser atrativo para pessoas de baixa renda conseguirem pagar despesas, os valores são baixos e “não devem ter muito impacto real para a vida dessas pessoas”.

Cuidados na hora de pegar o Crédito Caixa Tem

Apesar dos riscos, Bia Moraes aponta que a nova linha de microcrédito pode ser uma boa e uma das únicas opções para muitas pessoas, que precisam pagar despesas e enfrentam dificuldades de aprovação de crédito de outros empréstimos. No entanto, alguns cuidados são necessários antes de contratar o Crédito Caixa Tem.

“A dica é ter cautela e fazer um planejamento financeiro para não deixar que essa dívida traga problemas maiores. Além disso, vale também consultar outras opções de empréstimos com taxas menores”, aponta Moraes. A própria Caixa possui alternativas com juros mais baixos no empréstimo pessoal para pessoa física fora do aplicativo Caixa Tem. A média do banco, segundo dados do relatório do BC, é de 1,64% ao mês.

Seguindo a mesma linha, Rodrigo Leite também afirma que é preciso ter cautela e destaca a necessidade de definir prioridades. Para o professor, pegar o microcrédito para gastos supérfluos ou para despesas que podem ser adiadas não é uma boa opção, pois isso irá afetar o seu orçamento por até 24 meses. “Somente em casos de imprevistos ou de necessidade extrema eu aconselharia a tomar esse empréstimo”, declara.

Linhas de crédito

Os clientes Caixa Tem poderão escolher entre duas linhas de empréstimo, que se diferenciam quanto à destinação dos recursos:

  • Linha Pessoal – empréstimo com destinação livre para o que o cliente necessitar, inclusive para utilizar em despesas pessoais, como pagamentos de dívidas;
  •  Linha Produtivo – empréstimo voltado para despesas de empreendimentos, como pagamento de fornecedores, contas de água, de luz, internet, aluguel, compra de matérias-primas ou mercadorias para revenda, entre outras.

Para ambas as modalidades, o valor de contratação é de R$ 300 a R$ 1 mil. A taxa de juros é de 3,99% ao mês, independente do prazo solicitado e da finalidade do empréstimo.

Quem recebe Bolsa Família fica de fora

Segundo a Caixa, a nova linha de microcrédito será disponibilizada para cerca de cem milhões de potenciais clientes. Entre eles, poderão pegar o empréstimo autônomos, assalariados, beneficiários de políticas de distribuição de renda. No entanto, quem recebe Bolsa Família não terá acesso ao serviço. Aqueles que fizerem a atualização cadastral no app Caixa Tem para pedir o empréstimo, terão o cartão do BF cancelado.

Segundo Pedro Guimarães, presidente da Caixa, essa restrição existe porque, na visão do banco, quem depende do Bolsa Família teria dificuldades para pagar o empréstimo. Além disso, o público negativado, ou seja, que tem nome sujo no SPC ou na Serasa, também não poderá contratar o microcrédito do Caixa Tem.

Fonte: idinheiro.com.br